A confiança nas notícias está no menor nível já registrado, e o motivo não é só política
Relatório do Instituto Reuters mostra rede social ultrapassando site de jornal como principal fonte de notícia no mundo, com confiança em queda livre.
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O Instituto Reuters, ligado à Universidade de Oxford, publica anualmente uma pesquisa sobre o consumo de notícias. A edição de 2026 saiu com um dado que resume o momento: pela primeira vez desde que a pesquisa começou, em 2015, a confiança geral nas notícias caiu para o menor patamar já medido, 37% em média entre os 48 países pesquisados. E o motivo não é só desconfiança de política, tem muito comportamento de internet no meio disso.
Rede social já é a principal porta de entrada para notícia
O achado mais chamativo do relatório é estrutural: pela primeira vez, o consumo de notícia via rede social e vídeo ultrapassou qualquer outra fonte no mundo, respondendo por 54% do público total. Isso significa que mais gente descobre o que está acontecendo através de um feed do que entrando direto no site de um veículo de notícia. Os pesquisadores chamam isso de “plataformização” da notícia: o intermediário virou o principal canal.
O alcance dessas plataformas contrasta com a confiança declarada pelos entrevistados. Apenas 22% dos entrevistados dizem confiar em notícia vista em rede social, e a confiança em conteúdo de chatbot de inteligência artificial é ainda menor, 20%. Ou seja: o lugar onde mais gente busca informação hoje é justamente o lugar em que menos gente confia no que vê.
Ver imagem na fonte (nova aba)Fontes usadas para notícias na última semana, no Digital News Report 2026. Captura estática do gráfico oficial, em inglês. Os percentuais podem se sobrepor: cada pessoa pode usar várias fontes. A amostra passou de 46 mercados em 2021 a 48 em 2025–2026; a diferença de 2 pontos entre redes e TV exige cautela.
Crédito: Reuters Institute for the Study of Journalism / University of Oxford, Digital News Report 2026; captura estática: GeekNaVeia Ver imagem na fonte (nova aba) ↗
Uso: CC BY 4.0, conforme a página de créditos do relatório (DOI 10.60625/risj-4vgf-s811). Gráfico convertido em imagem estática, sem alterar dados ou créditos; tabela em português adicionada. Condições de uso (nova aba) ↗
Consultar os dados em texto
| Fonte | 2021 | 2026 |
|---|---|---|
| TV | 64% | 52% |
| Sites e apps jornalísticos | 63% | 51% |
| Redes sociais e vídeo | 56% | 54% |
| Rádio | 26% | 21% |
| Impresso | 24% | 16% |
| Nenhuma dessas | 4% | 6% |
Vídeo ganhou espaço no consumo de notícias
Outro número que chama atenção: 77% dos entrevistados assistem vídeo de notícia online toda semana, superando até a audiência de TV aberta em 45 dos 48 países pesquisados. O texto puro perdeu espaço para o formato audiovisual rápido, o tipo de conteúdo feito sob medida para rolar o feed sem parar.
Isso conversa direto com uma mudança de hábito que já vinha sendo notada: menos gente busca notícia ativamente, e mais gente só absorve o que aparece na tela sem procurar. Cerca de um quarto dos entrevistados se descreve como consumidor passivo de notícia, ou seja, só entra em contato com informação uma vez por semana, uma queda de dez pontos percentuais em relação a uma década atrás.
Chatbot de IA entrou na conversa, mas ainda pouca gente confia
No caso dos chatbots, 10% dos entrevistados já usam chatbots de inteligência artificial para se informar toda semana, contra 7% no ano anterior. Entre menores de 35 anos, o número sobe para 16%. Somando redes sociais, vídeo e chatbots, a fatia chega a 56%.
O recurso mais elogiado é poder fazer perguntas de acompanhamento: 42% de quem usa cita isso como principal vantagem. Só que a conta da confiança não fecha, porque apenas 20% acreditam nas respostas. E 42% dos usuários clicam para conferir a fonte original, o que sugere que muita gente usa o chatbot como ponto de partida, não como veredito.
O crescimento é desigual: Coreia do Sul (14%) e Grécia (12%) lideram, a Espanha dobrou o uso em um ano, e EUA, Reino Unido, França e Alemanha ficaram parados.
Criadores de conteúdo viraram jornalismo de bolso
Outro personagem ganhou espaço: o criador de notícia, aquele perfil que explica a pauta do dia em vídeo curto. Segundo o relatório, 27% das pessoas encontram criadores focados em notícia toda semana, e 46% recebem alguma notícia deles, contando também os que fazem entretenimento.
Substituir a imprensa é outra história. Só 13% têm a maior parte das necessidades de notícia atendidas por criadores focados no tema, e apenas 3% dependem exclusivamente deles. O público os vê como mais divertidos e menos confiáveis que os veículos tradicionais, o que resume o dilema: o formato agrada, a credibilidade ainda não acompanha.
O silêncio proposital também cresceu
O relatório também mede quantas pessoas evitam notícia de propósito, e esse número subiu para 42% globalmente, contra 29% quando o Instituto Reuters começou a medir isso, em 2017. Fadiga com más notícias, sensação de impotência e desconfiança generalizada aparecem entre as razões mais citadas para esse afastamento voluntário.
Onde a queda pesa mais, e a exceção brasileira
A confiança recuou em 29 dos 48 mercados. Nos Estados Unidos, só 25% confiam nas notícias, uma queda de cinco pontos percentuais, e entre americanos de direita o índice é de 15%. No mundo, 62% dizem se preocupar com o que é verdadeiro ou falso na internet, quatro pontos a mais que antes.
O Brasil foge do padrão: foi o único mercado em que a preocupação com desinformação diminuiu, três pontos percentuais. O relatório aponta o dado sem cravar uma explicação, então vale tratar como sinal para acompanhar, não como boa notícia definitiva.
O que isso diz sobre a gente
Mais gente descobre o mundo pelo feed de rede social, cada vez mais em vídeo curto, cada vez menos confiando no que vê. E uma fatia enorme simplesmente desistiu de acompanhar notícia. Isso atravessa os 48 mercados pesquisados pelo relatório, não é comportamento isolado de um país ou de uma plataforma.
O relatório permite acompanhar a distância entre encontrar uma notícia e confiar nela. Para os veículos, o desafio é chegar ao público nas plataformas sem perder o vínculo com a fonte original.
Assista pelo link “Abrir no YouTube” abaixo.
Primeiro episódio da série do Reuters Institute sobre o Digital News Report 2026, indicado no resumo executivo oficial. Conversa em inglês; os gráficos e o relatório completo continuam disponíveis na fonte citada no artigo.
Crédito: Reuters Institute for the Study of Journalism / University of Oxford Abrir no YouTube (nova aba) ↗
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